Quando criança, eu viajava para o sítio da família em todo feriado da Semana Santa. No fim da tarde do domingo, a rotina sempre se repetia: sentávamos juntos para assistir a algum filme sobre a morte de Jesus. Naquela época, esses filmes ainda passavam na Globo, acredite.
Enquanto as cenas se desenrolavam, eu observava com atenção aquele homem sendo julgado, humilhado e crucificado. Lembro, inclusive, de um filme cuja última cena mostrava Jesus caminhando com seu corpo glorificado após a ressurreição. Quantos não lembram do filme dirigido por Mel Gibson? um divisor de águas no gênero. Mesmo assim, algo sempre me incomodava. Eu me perguntava: o que isso tem a ver comigo? O que esse “homem”, que ao mesmo tempo é Deus, fez há dois mil anos que realmente impacta a minha vida hoje?

Aqui cabe uma breve observação: “paixão” é a palavra usada para descrever os últimos momentos até o sacrifício de Cristo na cruz . Esse termo vem do latim passio , que apenas no século XIV começou a ser usada para “forte emoção, desejo”. Por isso que muitos filmes recebem o nome de “paixão de Cristo”, ou seja, o sofrimento de Cristo.
Mas voltando ao tema, eu só encontrei a resposta que buscava décadas depois, quando me converti ao evangelho. As Escrituras, então, começaram a conectar todas as peças. O foco não está na emoção do sofrimento, mas na gravidade do pecado e na justiça de Deus. Como afirma Romanos 6:23:
“Porque o salário (recompensa) do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”.
A cruz, portanto, não surgiu por acaso; ela respondeu a um problema real.
O pecado criou um problema que o simples perdão não resolveria
Desde Gênesis, Deus deixa esse princípio muito claro. Adão e Eva viviam no Éden em plena comunhão com o Criador, sem culpa, sem vergonha e sem morte. No entanto, quando comeram do fruto proibido, quebraram deliberadamente a ordem divina. Deus já havia advertido: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer; porque, no dia em que dela comer, certamente você morrerá” (Gênesis 2:17, NAA 2017). Portanto, o pecado trouxe uma consequência objetiva: a morte.
Nesse momento, algo decisivo aconteceu. Adão e Eva não caíram mortos fisicamente naquele instante, embora mereceessem. Eles morreram “apenas” espiritualmente naquele momento. A Bíblia entende essa morte como separação espiritual de Deus. Deus adiara a condenação que o homem merecia para outro momento, pela sua misericórdia. Tassos Lycurgo faz uma observação ao afirmar que a maldição deveria ter recaído integralmente sobre o homem, mas Deus desviou essa punição para a terra. Por isso, o solo passou a produzir espinhos, dor e sofrimento.
Gênesis 3:17
Por ter dado ouvidos à voz de sua mulher e comido da árvore que eu havia ordenado que não comesse, maldita é a terra por sua causa; em fadigas você obterá dela o sustento durante os dias de sua vida
Deus iria terminar o julgamento do homem em outro momento…
Justiça e misericórdia caminham juntas no caráter de Deus
Logo depois da queda, vemos um detalhe importante. Adão e Eva tentaram se cobrir com folhas de figueira, mas Deus rejeitou aquela tentativa humana. Em vez disso, o próprio Deus os cobriu com peles de animais (Gênesis 3:21). Esse gesto revela um princípio que atravessa toda a Bíblia: para Deus tolerar a presença de um pecador, alguém inocente precisa morrer. O sangue de um substituto passou a cobrir a culpa humana.
A partir desse momento, Deus instituiu um sistema sacrificial que percorreu toda a Antiga Aliança. No entanto, esse sistema sempre teve limites claros. Hebreus explica que o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos uma vez por ano “não sem sangue, que ele oferece por si mesmo e pelos pecados do povo” (Hebreus 9:7, NAA 2017). Ou seja, o próprio sacerdote também era pecador. Além disso, essas ordenanças existiam apenas “até o tempo oportuno de reforma” (Hebreus 9:10, NAA 2017). Elas nunca resolveram o problema de forma definitiva.
O sacrifício de Cristo resolveu o que a humanidade não conseguia
Quando chegamos a Hebreus 9, o contraste se torna evidente. Os sacrifícios da antiga aliança purificavam apenas a carne. O texto afirma que eles santificavam exteriormente, mas não transformavam a consciência (Hebreus 9:13). Deus ainda não havia tratado de forma definitiva com o pecado da humanidade. É aqui que entra Cristo. Até mesmo na antiga Aliança, o sacrifício tinha que ser feito com um animal perfeito. Mas no que diz respeito a um ser humano, existiria alguém perfeito, sem pecado?
Cristo entrou em cena justamente como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ou seja, o ser humano perfeito, que nunca pecou. Ele ofereceu a si mesmo “pelo Espírito eterno, sem mácula, a Deus” (Hebreus 9:14, NAA 2017). Aqui surge a palavra apolýtrōsis, traduzida como “redenção”. Esse termo carrega a ideia de libertação mediante pagamento completo. Cristo pagou o preço integral que o pecado exigia.
Além disso, Hebreus afirma que Ele se ofereceu para “anular, mediante a sua morte, os pecados cometidos sob a primeira aliança” (Hebreus 9:15, NAA 2017). O texto também usa o verbo anapherō ao dizer que Cristo “levou os pecados de muitos” (Hebreus 9:28, NAA 2017). Essa palavra descreve o ato de carregar algo para oferecê-lo sobre o altar. Jesus não apenas morreu; Ele assumiu conscientemente o peso do pecado humano diante de Deus.
Assim, a cruz revela esperança e exige uma resposta
Hebreus 10 conclui esse raciocínio de forma poderosa. O autor afirma que os sacrifícios antigos nunca puderam aperfeiçoar os que se aproximavam de Deus. Cristo, porém, ofereceu “um único sacrifício pelos pecados, para sempre” (Hebreus 10:12, NAA 2017). Ele inaugurou uma nova aliança, escreveu a lei no coração e abriu um novo e vivo caminho até Deus.
Portanto, Deus não perdoou o pecado sem a cruz, porque para isso tinha que exterminar toda a humanidade de forma definitiva, pois todos pecaram (Romanos 3:23) e mereciam a morte eterna. Na prática, foram os judeus que mataram Jesus, como disse Estêvão em Atos 7:52, ajudados pelos Romanos, claro. Mas não é saudável alimentar um sentimento de vingança ou de hostilidade contra esse povo, o que foi feito por séculos, causando grandes massacres dignos de filme de terror ao longo da história, como o holocausto, por exemplo.
Na verdade, quando pensamos na morte de Cristo como algo espiritual, podemos apontar claramente de quem foi a culpa. A culpa foi minha, a culpa foi sua, pois todos nós pecamos e necessitávamos de perdão.
Poderíamos ter decidido nós mesmos pagar o preço de ir para o inferno, e esta ainda é uma opção. Mas existe uma outra muito melhor: lançar toda a culpa em um único homem, em um homem perfeito, sem pecado. O preço pelo nosso erro está pago. A cruz satisfez a justiça divina e, ao mesmo tempo, revela o amor de Deus por nós.
A salvação já está conquistada. Cristo já pagou o preço. A decisão está diante de nós: aceitar essa obra completa, com fé, ou rejeitá-la.
Por Diego Dantas
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